HABITAT

SOBRE A EXPOSIÇÃO

 

 

A Exposição Habitat - da artista Rosana Rocha - revela as camadas não óbvias de territórios midiáticos concebidos por diferentes aspirações estéticas, mas que mostram a relação entre o homem e os animais em reflexões múltiplas.

O processo de concepção de cada imagem é muito particular, pois Rosana reproduz na pintura, figuras e cenas que fazem parte da produção midiática. O olhar artístico diante do que é visto na mídia repara e desconecta do contexto original, os recortes que formam as sequências da exposição. Na exibição, as obras deslocam as cenas do seu meio e são transfiguradas em lugares distintos que levam o fruidor a questionar sobre a vida e o modo de existência.

Na série Habitat, a artista explora o Stil, imagens estáticas retiradas de filmes que mostram animais em ocupações adversas e distantes do seu ambiente natural. A série revela o profundo distanciamento entre o homem e a natureza, fruto de um mundo televisionado, conectado por telas múltiplas em que a realidade é mais midiática do que vivida. Os recortes são reproduzidos e super dimensionados em telas pintadas que despertam o fruidor para questionamentos sobre o consumo, as questões capitais e a mídia.

Há um tom provocativo em toda a exposição que estimula o pensamento e o senso crítico do leitor. Numa contemporaneidade tão polarizada, Rosana imprime de forma clara uma obra engajada pelo teor urgente e genuíno da temática, mas para além disso também nos mostra o quão transfigurada é a realidade concreta em que a vida e a morte são tão banalizadas e simuladas, como diria Jean Baudrillard. O homem vive a simulação de modelos e padrões, seguindo anestesiado às adversidades e à crítica.

Na série Faunas Brasileiras, a artista também reproduz em grande dimensão e por meio da pintura, imagens de animais impressas em enciclopédias antigas. Nessas figuras os animais estão dispostos em silhuetas, são catalogados por números e identificados por um índice. Talvez esses seres vivos nem existam mais e assim, a obra reafirma a distância entre o homem e a natureza, não apenas de forma conceitual, mas de forma estratégica em que as individualidades são apagadas e em tons pastéis nos alienamos das crises e da diluição da vida animal.

Em Consumidos, a artista articula rótulos e embalagens que possuem animais como ícones e representam a estética vigente nas mercadorias do sistema econômico. Amamos os animais, os rótulos, somos fiéis às marcas, mas nesta relação não existe pausa para refletir em como o homem se relaciona com o que consome. O indivíduo adquire e compra, mas ainda permanece alheio às contradições de seu próprio modus vivendi.

Na sequência fotográfica Bichos no Asfalto, a artista apresenta em grande escala, imagens de pequenos animais mortos por atropelamento, cujo efeito estético é o choque e a repugnância. Tais sentimentos são resgatados pela arte e deslocam o olhar do fruidor para uma possível revisão da existência e do modo de vida que introjetamos como natural.

A Exposição Habitat é virtual e não se limita somente à exibição de obras, mas transita entre motivações e linguagens que estão em nosso cotidiano e nos conduzem ao olhar artístico que Rosana cultiva com crítica e lucidez. O desdobramento dessa exibição está nos materiais didáticos e no potencial em trazer novas versões e questionamentos. Habitat é uma experiência visual e crítica pela sensibilidade da artista e pelo seu engajamento íntimo.

Argumento curatorial - Gabriela Coelho

Designer, muralista, professora e pesquisadora da Estética Contemporânea. Formada em Letras e Publicidade com mestrado em Crítica Literária. Está a frente do escritório e ateliê, Gabi Coelho Design Studio que há 8 anos cria identidades visuais e projetos editoriais . Ensaísta, também escreve críticas de arte e textos curatoriais. Na arte, também realiza projetos de ilustração e muralismo.